Guia técnico: a importância da parametrização correta em relés multimarcas

Guia técnico: a importância da parametrização correta em relés multimarcas

Descubra como a configuração precisa de IEDs de diferentes fabricantes garante a estabilidade do sistema e evita conflitos lógicos em subestações digitais.

 

A modernização das subestações trouxe um desafio crescente para as equipes de engenharia: a convivência de equipamentos de diferentes gerações e fabricantes em uma mesma subestação. Em uma única planta, é comum encontrar relés Siemens, ABB, GE e SEL operando em conjunto. No entanto, sem uma parametrização rigorosa e padronizada, essa diversidade tecnológica pode se tornar uma fonte crítica de falhas e desligamentos indevidos.

 

O desafio da interoperabilidade técnica

Cada fabricante possui sua própria lógica de programação, ferramentas de software (como o DIGSI, PCM600 ou AcSELerator). O erro mais comum é tentar replicar uma lógica de um fabricante em outro sem considerar as nuances de tempo de processamento e bibliotecas de funções específicas.

 

A parametrização correta vai muito além de inserir valores de pick-up ou dial de tempo. Ela envolve a criação de lógicas de intertravamento complexas que devem conversar perfeitamente entre si para que a proteção seja, ao mesmo tempo, sensível o suficiente para detectar faltas e estável o bastante para não atuar em oscilações normais de carga.

 

Protocolos de comunicação e a norma IEC 61850

Em sistemas modernos, a parametrização depende intrinsecamente da rede de comunicação. O uso da norma IEC 61850 permitiu a troca de mensagens rápidas entre relés de marcas diferentes (mensagens GOOSE).

 

Contudo, a configuração desses "datasets" exige um domínio profundo de arquitetura de rede. Erros de VLAN, de prioridade (IEEE 802.1p) ou na configuração do dataset e do APPID podem atrasar ou bloquear mensagens GOOSE, levando a uma atuação lenta que coloca em risco a integridade física dos transformadores de potência.

 

Pontos críticos na configuração de relés

Para garantir uma parametrização confiável, o engenheiro deve focar em quatro pilares:

 

  • Coordenação e Seletividade: Garantir que as curvas de tempo-corrente estejam perfeitamente ajustadas para isolar apenas o setor afetado.
  • Lógica de Religamento Automático: Parametrizar corretamente os ciclos de religamento para evitar danos em faltas permanentes.
  • Sinalização e Eventos: Configurar corretamente a geração de registros de eventos (SER) e oscilografias para diagnósticos pós-falta precisos.
  • Segurança Cibernética: Implementar senhas e níveis de acesso que impeçam alterações indevidas nos parâmetros de proteção.

 

A importância dos testes de validação

Nenhum arquivo de parametrização deve ser considerado final sem a devida validação em campo. A utilização de malas de teste secundário, como OMICRON, é a única forma de comprovar que o que foi programado no software se traduz em uma ação física correta no disjuntor. Estes testes garantem que os tempos de atuação estão dentro das tolerâncias e que as lógicas multimarcas estão sincronizadas.

 

Contar com uma equipe que possui experiência direta no desenvolvimento dessas tecnologias (DNA de fabricantes) reduz drasticamente o tempo de comissionamento e eleva o nível de confiabilidade do sistema a patamares internacionais.